História da Paróquia N. Sra. Auxiliadora

A devoção à Nossa Senhora Auxiliadora em Bagé

A devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, característica da família salesiana de Dom Bosco, esteve desde os primeiros anos presente na ação educativa e pastoral dos Salesianos em Bagé. Da pequena capela interna do colégio, instalada em 1904 e elevada à condição de matriz da paróquia em 1919, até o majestoso templo inaugurado em 24 de maio de 1929, a devoção à Auxiliadora dos Cristãos foi se espalhando pela fronteira do sul do Brasil e alcançando os lugares mais distantes, principalmente por meio dos ex-alunos, que, ao seguirem novos caminhos, levavam consigo a fé e os ensinamentos recebidos em Bagé.

A primitiva capela e a criação da Paróquia

A notícia da inauguração do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em 2 de março de 1904, já fazia referência à celebração de uma missa em uma pequena sala onde havia sido instalada a capela destinada ao uso dos alunos e professores. Em junho daquele mesmo ano, tiveram início os trabalhos de construção do edifício do colégio, na Rua Marechal Floriano. À medida que as paredes do novo prédio eram erguidas, um dos primeiros cuidados foi reservar uma de suas salas para o funcionamento de uma capela provisória.

Em 1908, conforme registra a crônica, “fica terminado o novo salão que deve servir para capela e teatro”. No dia 6 de setembro daquele ano, realizou-se a bênção da capela, presidida pelo Padre Dell’Oca, seguida de missa solene, “cantada pelo Rev.mo Sr. Vigário Costabile Hippolyto”.

À medida que a presença e a ação dos Salesianos em favor do povo cresciam e ultrapassavam os limites do colégio, começou a surgir a ideia da criação de uma nova paróquia em Bagé. Até então, a cidade contava apenas com a Paróquia de São Sebastião, existente desde a fundação da povoação.

A Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora foi criada por decreto do bispo diocesano de Pelotas, Dom Francisco de Campos Barreto, em 8 de maio de 1919. Com a criação da nova paróquia, a capela interna do Colégio Auxiliadora foi elevada à condição de igreja-matriz, passando a acolher a recém-formada comunidade paroquial, razão pela qual as crônicas passaram a utilizar também a expressão “capela-matriz”. A paróquia foi solenemente instalada no dia 24 de maio do mesmo ano e seu primeiro pároco foi o Padre Francisco Gaiotto, diretor do Colégio Salesiano Auxiliadora até então.

Altar da antiga Capela do Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora em 1919, considerada na época como a própria Paróquia N. Sra. Auxiliadora, antes da construção do templo. Fonte: Arquivo Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora.

A Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora

O Padre Carlos Peretto, terceiro diretor do Auxiliadora, já havia sonhado com a construção, em Bagé, de um santuário dedicado à Auxiliadora. Coube, porém, ao seu sucessor, Padre Francisco Gaiotto, primeiro pároco da recém-criada paróquia, levar adiante essa ideia.

Pouco depois da criação da paróquia, os Salesianos, contando com a colaboração dos Salesianos Cooperadores, iniciaram um movimento para arrecadar recursos destinados à construção de um templo em honra de Nossa Senhora Auxiliadora. Desde o início, a iniciativa contou com o apoio da comunidade.

Em dezembro de 1922, foi adquirido o prédio existente ao lado do colégio. No dia 24 de maio de 1923, por ocasião da celebração do quarto aniversário da criação da paróquia, foi lançada a pedra fundamental do novo templo. Naquele momento, era pároco o Padre Antônio de Almeida Lustosa, que mais tarde se tornaria bispo e, hoje, é reconhecido como “Venerável”. A bênção da pedra fundamental foi realizada solenemente pelo bispo de Pelotas, Dom Joaquim Ferreira de Mello.

O projeto da igreja foi elaborado pelo arquiteto salesiano Padre Ernesto Vespignani, que também projetou a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora e São Carlos em Buenos Aires. A direção da execução ficou a cargo do coadjutor salesiano e construtor Heitor Schneider, que pertenceu à comunidade salesiana do Auxiliadora durante os anos de construção e, posteriormente, retornou à comunidade em um segundo período.

Bênção da Pedra Fundamental da futura Paróquia. Fonte: Arquivo Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora

Em 1924, quando as colunas já estavam erguidas e os arcos da futura igreja começavam a ser construídos, foi celebrada uma solene missa campal no interior do novo templo. Para a ocasião, preparou-se um altar diante do andor da Virgem Auxiliadora. A celebração teve como celebrante o Padre Pedro Rota, inspetor dos Salesianos no Brasil, e como “diácono” o Padre Antônio de Almeida Lustosa, diretor e pároco, que também proferiu a homilia.

Missa campal realizada dentro do futuro templo, em 1924. Fonte: Arquivo Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora.

Durante a maior parte do período de construção da igreja, o pároco responsável foi o Padre Teófilo Twórz, que substituiu o Padre Lustosa após sua eleição como bispo de Uberaba. Em 1927, o templo já recebia o telhado, enquanto eram realizados os preparativos para a armação das abóbadas e da torre.

Também naquele ano chegou a Bagé o carrilhão de cinco sinos. Diante da impossibilidade da presença do bispo de Pelotas, a bênção dos sinos foi realizada pelo Monsenhor Costabile Hippolyto, no dia 21 de agosto de 1927. Conforme a tradição, cada sino recebeu um nome: o primeiro foi dedicado ao Sagrado Coração de Jesus; o segundo, a Nossa Senhora Auxiliadora; o terceiro, a São José; o quarto, a São Francisco de Sales; e o quinto, a Dom Bosco e Domingos Sávio.

Os 5 sinos da Paróquia Auxiliadora. São eles (da esquerda para a direita): Dom Bosco e São Domingos Sávio, São Francisco de Sales, São José, N. Sra. Auxiliadora e Sagrado Coração de Jesus. Fonte: Arquivo Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora.

O ano de 1928 foi dedicado à confecção das abóbadas de concreto e à conclusão da torre. No dia 27 de julho, o arquiteto Schneider colocou a cruz no alto da torre. Em 12 de outubro, os sinos foram inaugurados no compartimento da torre.

Nesse registro, é possível observar o andamento do projeto de construção da paróquia. Fonte: Arquivo Colégio Salesiano N. Sra. Auxiliadora

Ainda em outubro daquele ano, chegaram a Bagé o relógio da torre, doado pelo Município de Bagé sob a liderança de seu intendente, o Dr. Carlos Mangabeira, os vitrais da igreja e a belíssima estátua de Maria Auxiliadora, que seria inaugurada no ano seguinte.

Embora a construção ainda não estivesse totalmente concluída, faltando o revestimento externo, a igreja foi solenemente inaugurada em 24 de maio de 1929, com a bênção solene concedida pelo bispo diocesano de Pelotas, Dom Joaquim Ferreira de Mello. Na mesma ocasião, foi abençoada a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, que, desde então, passou a dominar majestosa em seu templo.

A respeito da imagem, o jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, em sua edição de 26 de maio daquele ano, registrou: “O encanto, porém, do elegante santuário, é a nova estátua da padroeira. Custou a quantia de 5 contos de réis, e é dádiva de uma cooperadora salesiana, grande devota de Maria. Essa magnífica imagem é produto dum artista italiano, o escultor Ferraro Vittorio, de Turim.”

Uma característica marcante do santuário, presente desde sua construção e conservada até os dias atuais, é a pintura interna totalmente branca. O cronista da época, o salesiano Padre Américo Ceppi, destacou essa particularidade ao relatar a missa da meia-noite do Natal daquele ano. Em seu relato, conferiu à brancura do templo um belo significado bíblico, comparando-a às vestes da noiva do Cordeiro mencionada no livro do Apocalipse:

“A nova Matriz apresentava-se em toda a sua brancura, qual a Esposa do Cordeiro. A assistência nessa data foi extraordinária, calculando-se para mais de 800 pessoas. A Schola Cantorum esteve no seu maior brilho, tendo executado a grandiosa missa ‘Te Deum laudamus’ do M. Perosi.”

Cinco anos mais tarde, em 1934, a Igreja viveu um acontecimento de grande significado para a família salesiana: a canonização de Dom Bosco, realizada em Roma no dia 1º de abril, solenidade da Páscoa da Ressurreição.

A canonização também foi celebrada em Bagé. No dia 9 de setembro de 1934, realizou-se a festa de São João Bosco e a bênção de sua imagem, que, desde então, permanece sobre o altar a ele dedicado. A capela de Dom Bosco, construída no local do primitivo altar, foi obra do diretor e pároco Padre Hugo Neves Ferreira, em 1962.

A “lâmpada votiva”

Entre as tradições que marcaram a história de Bagé está a chamada “lâmpada votiva”, tradição cujo nome ficou ligado ao Padre Edgar de Aquino Rocha.

O costume teve início em maio de 1943. Naquele momento, o Padre Edgar, diretor e pároco, propôs ao povo de Bagé que todas as famílias da cidade realizassem um gesto de homenagem a Nossa Senhora Auxiliadora, pedindo paz e proteção para o Brasil e para o mundo, que vivia a angústia da Segunda Guerra Mundial.

A proposta era simples e, ao mesmo tempo, carregada de significado: ao entardecer do dia 24 de maio, quando repicassem os sinos da Auxiliadora, cada família deveria acender uma vela na janela de sua casa.

No dia 23 de maio daquele ano, o jornal “Correio do Sul” publicou a seguinte notícia: “Quando da realização da festa de Nossa Senhora Auxiliadora, às 19 horas, as fachadas das casas da cidade devem ser iluminadas, em uma demonstração de piedade à Virgem e uma imploração de bênção e de paz”.

A Crônica do Colégio Auxiliadora explica que, naquele ano de 1943, a festa de Nossa Senhora Auxiliadora havia sido antecipada para o dia 23, por coincidir o dia 24 com um domingo.

No ano seguinte, em 1944, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial e muitos jovens soldados tiveram de partir para a Europa como “expedicionários”. Diante dessa nova realidade, o gesto de iluminar as janelas das casas ganhou um sentido ainda mais especial. Além de representar uma homenagem a Nossa Senhora Auxiliadora, passou a ser também um pedido e um “voto” — razão pela qual recebeu o nome de “lâmpada votiva” — para que todos os jovens de Bagé que haviam partido para a guerra retornassem sãos e salvos.

Terminada a guerra, foi possível agradecer a Deus e à Virgem de Dom Bosco pelo retorno de todos os seus filhos, sem uma só perda.

O costume de colocar velas acesas nas janelas das casas na noite de 24 de maio tornou-se tradicional e permanece até os dias atuais. Com o passar do tempo, a tradição também evoluiu: das simples velas acesas nas janelas, passou a incluir manifestações mais artísticas, que imitam vitrais confeccionados com papel colorido.

Os párocos da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora

Ao longo dos 107 anos de existência da paróquia, muitos foram os Salesianos que exerceram a função de pároco. Alguns deles desempenharam, simultaneamente, a função de diretores do Colégio Auxiliadora.

Conforme os registros da paróquia, exerceram o ministério de párocos da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora:

  • P. Francisco Gaiotto (1919-1922)
  • P. Antônio de Almeida Lustosa (1923-1924)
  • P. Teófilo Twórz (1925-1930)
  • P. José Luiz Valentim (1931-1933)
  • P. Júlio Bonalume (1934-1935)
  • P. Leão Muzzarelli (1936-1937)
  • P. Octacílio de Oliveira (1938-1940)
  • P. Edgar de Aquino Rocha (1941-1947)
  • P. Rafael Chroboczek (1948-1952)
  • P. Sílvio Sattler (1953-1955)
  • P. Hugo Neves Ferreira (1956-1964)
  • P. Olindo Carlini (1965-1974)
  • P. Sigmundo Tarnowski (1975)
  • P. Armando Edson Garcia (1976-1979)
  • P. Antônio Deretti (1980-1982)
  • P. Luiz Santiago de Araújo (1983)
  • P. Honorino João Muraro (1984-1986)
  • P. Arturo Cipriano (1987-1998)
  • P. Francisco Brys (1999-2000)
  • P. Sigmundo Tarnowski (2001-2011)
  • P. Juarez Testoni (2011-2015)
  • P. Ademar Urbainski (2015-2017)
  • P. Carison Kapelinski (2018)
  • P. Tarcísio Luís Brasil Martins (2019)

Entrega da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora à Diocese de Bagé

Após um século de vínculo entre a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora e o Colégio Salesiano Auxiliadora, a presença da comunidade religiosa salesiana em Bagé passou por um processo de reorganização institucional. Ao longo de 2019, foram realizadas reuniões entre o Grupo Gestor do Colégio Salesiano Auxiliadora, a Inspetoria Salesiana São Pio X e a Diocese de Bagé, com o objetivo de definir os novos encaminhamentos para a atuação pastoral na comunidade. Como resultado desse processo, foi estabelecida a transferência da administração da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora para a Diocese de Bagé, mantendo-se a colaboração com o Colégio Salesiano Auxiliadora, especialmente para a realização de celebrações e atividades pastorais. A partir de janeiro de 2020, a Paróquia passou oficialmente à administração diocesana, dando continuidade à sua missão pastoral e à sua importante trajetória junto à comunidade de Bagé.

Sob a nova administração, já foram párocos:

  • Frei Eudes Roque Zanon (2020)
  • Frei Juan Miguel Gutiérrez Méndez (2021)
  • Frei Eudes Roque Zanon (2022-ATUALMENTE)

A Auxiliadora, padroeira de Bagé

Desde a fundação da cidade, São Sebastião é o padroeiro de Bagé. Foi a partir da humilde capela existente nos primeiros tempos da povoação que se originou a igreja-matriz, hoje Catedral.

Ao mesmo tempo em que crescia entre os bageenses a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, também se fortalecia a ideia de proclamá-la padroeira de Bagé. Esse desejo acabou se concretizando no decreto legislativo de 2 de junho de 1958, ano do centenário da cidade, posteriormente sancionado pelo prefeito municipal em exercício, vereador Palmor Brignol.

O mesmo decreto declarou o dia 24 de maio como “dia santo municipal”, considerando a data “ponto facultativo e feriado escolar”.

O projeto foi apresentado no Legislativo Municipal pelo vereador Frederico Petrucci, que durante muitos anos foi professor no Auxiliadora. A iniciativa contou ainda com a contribuição de Oneya Arbo Aguirre, secretária da Câmara, “graças ao zelo incansável” com que esclareceu os vereadores sobre a questão do número de padroeiros que uma cidade pode ter.

Naquele momento, o Padre Hugo Neves Ferreira, diretor e pároco, registrou também essa participação na história da devoção a Nossa Senhora Auxiliadora em Bagé. Assim, ao longo das décadas, a presença de Maria Auxiliadora foi ultrapassando os limites do templo e da comunidade salesiana, tornando-se parte da própria história religiosa e cultural da cidade.

Fonte: Padre Tarcísio Luís Brasil Martins, SDB – Cem anos com a Rainha: Centenário da Presença Salesiana em Bagé/RS (2004)
Revisado por: Enzo Lugo Moraes – Assessor de Comunicação do Colégio Salesiano Auxiliadora